Uma tese de doutorado defendida dentro de uma prisão não é só um feito raro. É um tapa de realidade. Enquanto a educação ainda é negada ou tratada como privilégio em muitas penitenciárias do país, um interno em Goiás conseguiu chegar ao nível mais alto da formação acadêmica.
A defesa aconteceu de forma on-line para uma banca da Universidade Federal de Goiás, direto de uma unidade prisional em Aparecida de Goiânia. O reeducando, formado em Design Gráfico e mestre em Cultura Visual pela Universidade Federal de Goiás (UFG), concluiu sua pesquisa interdisciplinar envolvendo artes visuais, computação e museologia. Mas o assunto principal não é o tema da apresentação. É o acesso ao estudo em um lugar onde, historicamente, estudar quase nunca foi prioridade.
No Brasil, a realidade é dura. Em grande parte das prisões faltam salas de aula, professores e até material básico. Em muitos estados, só estuda quem insiste muito ou tem sorte. O sistema prende, mas pouco prepara para o depois.
O caso de Goiás mostra que a educação no cárcere não é utopia. Onde há oferta regular de ensino, do básico ao superior, os índices de reincidência tendem a cair e as chances de reintegração aumentam. Ainda assim, exemplos como esse seguem sendo exceção, quando deveriam ser regra.
Mais do que celebrar um marco histórico, o episódio convida à reflexão. Se a educação transforma trajetórias mesmo em um ambiente de privação de liberdade, o problema pode não ser o preso, mas sim um sistema que, na maior parte do país, ainda escolhe não ensinar.
Por Joyce Pinheiro



